Entramos neste artigo a pés juntos, de carrinho, como queiram, mas com uma opinião forte: esta foi, muito possivelmente, das Copas de Espanha de Futsal mais emocionantes dos últimos tempos. Tivemos um conjunto de oito equipas fortes, aguerridas e que acabaram por dar a todos os amantes de futsal exatamente aquilo que já realçámos: emoção. Desculpem sermos assim tão repetitivos neste início, mas é para deixarmos a ideia clara no princípio deste texto que tanto gosto nos deu escrever – e nesta prova que tanto gosto nos deu acompanhar.

Ora bem, o Inter Movistar venceu a sua 11.ª Copa de Espanha. São, nada mais nada menos, o clube com mais títulos nesta competição. Será, porventura, ainda mais importante esta conquista pelo facto de Inter e Barcelona nunca se terem encontrado numa final destas até ao último domingo (28 de março). Como já percebemos, a equipa de Madrid saiu por cima, só não esperávamos que acabasse por golear o rival. Mas já lá vamos.

As ‘estrelas’ eram muitas entre as mais variadas equipas, desde Ferrão a Edu, de Juanjo a Pito ou de Lolo a Tolrá, tal como outros. Tivemos jogos para todos os gostos: grandes penalidades, expulsões, golos no último segundo, ‘remontadas’, o que fosse. Foi, acima de tudo, uma competição completa, não fosse este um dos países com algumas das formações mais fortes a nível do futsal mundial. Lembramos, abaixo, todos os atletas e equipas presentes na Copa 2021, que decorreu em Madrid, antes de passarmos a avaliar as participações de cada equipa e a destacar um ‘Momento da Copa’ para cada uma delas.

https://twitter.com/joaotiagoaraujo/status/1374674768536989699?s=20

Em apenas sete jogos (no total da Copa), tivemos direito a ver 36 golos. Todos eles, como sabemos, com as suas diferenças. Ainda assim, nesta infografia, damos conta que 67% dos mesmos foram remates de primeira e apenas 33% consequentes de bolas mais estudadas ou até mesmo jogadas ‘desenhadas’ a papel vegetal. Curioso, também – e por isso o destacamos -, o facto de apenas 36% dos tentos assinalados terem sido com a intervenção clara de dois jogadores nessa mesma jogada. Interessante ainda realçar que foram mais os golos (7) marcados nos últimos três minutos dos encontros, sendo que 21 dos mesmos (58%) foram assinalados na segunda metade dos jogos. Para terminarmos esta pequena lista de números, constatamos que 22 dos tentos (61%) acabaram por serem conseguidos de pé direito – o mesmo pode explicar-se pelo facto de existirem mais jogadores destros que esquerdinos.

https://twitter.com/joaotiagoaraujo/status/1376906180363173888?s=20

  • Jimbee Cartagena

Os cartagineses fizeram a sua segunda participação da história na Copa de Espanha, a estreia tinha sido em 2018. O Jimbee chegava como campeão de inverno, mas com uma quebra nos últimos jogos, somando duas vitórias nos cincos jogos anteriores a esta final-eight. O primeiro duelo foi com o Viña Valdepeñas, um jogo intenso em que o Jimbee precisou de estar a perder para entrar no jogo. Depois disso, assumiu a posse e fez o jogo que tanto gosta: muito controlo de jogo e foi Edu Sousa que acabou por ir impedindo o golo dos cartagineses. Os dois golos que valeram a vitória foram marcados por Andresito, o último já nos instantes finais da partida. Depois, nas meias-finais, enfrentaram o Inter Movistar que os derrotou por 2-0.  Duas vitórias nos dois jogos anteriores para o Inter, que levou novamente a melhor neste encontro. Neste último jogo, o Jimbee não conseguiu colocar o seu jogo na quadra, não foi capaz de ter tanta posse e mesmo o ataque móvel – com Mellado, Franklin e Andresito – não funcionou tão bem, tal como o jogo com uma referência na frente – com Waltinho e Solano. As duas formas de jogar da equipa estiveram abaixo do que por norma acontece e por isso a eliminação e o pior jogo que a equipa fez.

Momento da Copa

Consideramos inevitável relembrar o golo de Andresito, nos quartos-de-final, a 0,06 segundos do final da partida. Já adeptos e equipas estavam preparadas para as penalidades, mas a emoção caraterística do futsal voltou a expressar-se e a trazer um momento histórico para os comandados de Duda. Confira abaixo o golo.

  • Viña Valdepeñas

Os atuais campeões espanhóis estão a fazer uma época um pouco mais abaixo, tal como foi possível ver-se neste jogo respetivo aos ‘quartos’. Não têm quaisquer problemas em abdicar da posse, entregando o jogo ao adversário. Matheus marcou e deu a vantagem ao Valdepeñas que conseguiu aguentar todo o ímpeto do Jimbee, muito graças a Edu, que foi conseguindo parar muitos remates. Este Viña foi-se mostrando uma equipa voltava a apresentar muitos problemas defensivos e no ataque, tudo foi na base do talento individual dos jogadores neste jogo, principalmente da parte de Chino. Uma ‘turma’ muito na expetativa, a tentar errar o menos possível, sem se importar com a posse e a querer apenas sair rápido. As lacunas continuam a existir e neste jogo ficaram novamente à vista.

Momento da Copa

Como destaque para a participação do Valdepenãs, formação que acabou por ser eliminada ainda no primeiro encontro, frente ao Cartagena, deixamos o pós-jogo. É simples explicar o motivo: o golo de Andresito, que destacámos anteriormente, terminou, em segundos, com o sonho dos homens de David Ramos. A possibilidade de irem tentar a sua sorte nas grandes penalidades acabou em lágrimas, daí relembrarmos o contraste de emoções entre as duas equipas que, na verdade, espelham qualquer encontro desportivo em que exista um vencedor e uma eliminação.

https://twitter.com/noaasoka/status/1375407992670195722?s=20

No entanto, como não podemos esconder o orgulho português, aqui abrimos uma exceção para colocarmos os holofotes em Edu. O guarda-redes do Valdepenãs, internacional das quinas, esteve mais uma vez em grande forma. Ainda assim, não é isso que queremos realçar, mas sim as suas palavras no final do jogo, onde demonstra toda a sua humildade, acartando a sua parte das culpas nesta derrota.

  • Palma Futsal

O Palma começou por enfrentar o Inter Movistar. A formação de Maiorca perdeu nas grandes penalidades e com isso voltou a cair perante o Inter na Copa de Espanha, no quarto ano consecutivo. Aquilo que se viu foi o esperado, mais posse para o Palma, mais bola e mais oportunidades. O 5×4 muito bem trabalhado, António Vadillo tem essa situação de jogo aperfeiçoada e o próprio Inter Movistar sentiu dificuldades para lidar com o mesmo. Diego Nunes foi o guarda-redes avançado inicialmente, dando, depois, o lugar a João Batista, quando Vadillo arriscou tud. Não fosse Jesus Herrero e o Palma tinha tido um resultado diferente. Higor e Lolo estiveram, como sempre, em destaque. Ficou para a história a tremenda recuperação, estar a perder por 3-0 e conseguir empatar foi algo extraordinário e, ainda, o futsal bem jogado desta equipa do Palma.

Momento da Copa

Neste caso, não é necessariamente apenas ‘um momento’, mas sim o final do jogo que acabou por dar o empate ao grupo de Maiorca que, como já referimos, depois de estar perto de ser goleado neste jogo inicial da competição, acabou por levar o encontro até à lotaria final. Foi uma recuperação ‘monstruosa’, que só demonstra o porquê do crescimento e maturidade da equipa do Palma nos últimos tempos. Por isso mesmo, não destacamos um golo, mas sim o resumo da partida.

https://twitter.com/rodrigosaldanha/status/1375236073324953601?s=20

  • Zaragoza

Foram duas vezes semi-finalistas, mas regressaram apenas este ano à Copa, três anos depois da última participação. O grande destaque neste Zaragoza é o trabalho de David Marín, o treinador é o grande responsável pelo que tem acontecido nesta equipa. A equipa não tem um futsal tão “bonito” como outras, mas é uma formação competente e que taticamente está bem trabalhada. Neste jogo, o Levante foi tendo mais posse, mas este Zaragoza soube aproveitar cada oportunidade. Luka Diem e Jamur foram os maiores destaques, que sem estrelas conseguiram colocar um futsal competente em quadra.

Momento da Copa

O único golo marcado pelo Zaragoza, assinalado por Dian Luka, foi provavelmente o pico mais alto desta equipa. Aos 8 minutos colocaram-se em vantagem nestes quartos, mas ainda antes do intervalo Levante conseguiu fazer a ‘remontada’.

https://twitter.com/ADSala10/status/1375516901745418240?s=20

  • El Pozo Múrcia

Reedição da final da Uefa Futsal Champions League logo nos quartos. Um dos pontos que fica deste jogo é o facto de o EL Pozo continuar com muito azar nos confrontos com o Barcelona, desta vez caíram nas grandes penalidades. EL Pozo a jogar bem, em alguns momentos muito pela qualidade individual de alguns elementos, como o Fernando, que foi mostrando todo seu nível e foi levando o ataque dos murcianos às costas em alguns momentos. Outro dos destaques do EL Pozo Múrcia neste encontro foi, sem dúvida, a marcação que Diego Giustozzi pensou para Ferrão, isto porque Alberto teve como missão principal defender o pivô. Nem sempre é muito vista esta marcação homem a homem, mas teve os seus frutos porque Ferrão foi fazendo uma exibição menos inspirada e a única vez que conseguiu rodar e rematar com espaço, fez golo, curiosamente quando Alberto estava de fora lesionado. A expulsão de Juanjo complicou tudo. Falar ainda do 5×4 do EL Pozo que, não estando tão trabalhado como em outras equipas, neste jogo conseguiu ter bons momentos e conseguiram mesmo empatar o jogo, já no prolongamento, com um tento em situação de guarda-redes avançado.

Momento da Copa

O Barcelona-El Pozo foi dos melhores jogos desta edição da prova. Como já referimos, apesar do encontro ter sido resolvido apenas nas grandes penalidades, com a equipa de Múrcia a bater-se bastante bem durante os 40 minutos, a expulsão de Juanjo acabou por marcar, negativamente, a participação da formação de Diego Giustozzi.

  • Levante

O Levante venceu o Zaragoza por 2-1 nos quartos e perdeu com o Barcelona por 3-6 na meia-final. Fica sempre uma equipa muito bem trabalhada, com várias soluções e sempre capaz de se adaptar ao jogo. Diego Ríos, na disputa com o Barcelona, optou por um jogo mais físico, mas sem nunca abdicar da matriz de bom futsal à qual o Levante nos habituou. Um encontro mais físico anulou, por exemplo, o Ferrão que viu algumas dificuldades. Acabaram por pagar fisicamente esse jogo tão intenso e tão desgastante do primeiro tempo, pois no segundo os erros foram-se acumulando em maior número e o Barcelona aproveitou cada um deles para se distanciar no marcador. O 5×4 do Levante teve mais uma vez Gallo como guarda-redes avançado, mas fruto de todo o cansaço, foi o Barça quem aproveitou para marcar, porque o Levante estava realmente muito cansado. Dois jogos onde se viu o bom futsal que caracteriza o líder da liga espanhola.

Momento da Copa

O poderio do Levante comparado com o Zaragoza acaba por não ser a nossa escolha, mas sim o momento em que a equipa de Diego Ríos pôde sonhar. Alcançar a meia-final é sempre um feito, mas encontrar o Barcelona assusta. Ainda assim, ao intervalo, graças ao auto-golo de Marcênio, aos 2 minutos, acabou por fazer com que os homens do Levante ganhassem alguma esperança, sobretudo quando a primeira parte terminou mesmo assim: com 1-0 no marcador. A verdade é que Ximbinha empatou no reatar (22′), mas prontamente Gallo (25′) voltou a colocar o Levante na frente. A verdade é que o sonho ainda durou, prometeu e viveu bons momentos.

  • A final: Inter Movistar vs Barcelona

Vamos agora ao jogo mais importante de qualquer competição: a final. Como já referimos, os rivais encontraram-se, pela primeira vez, numa final da Copa de Espanha. Víamos frente a frente as equipas com mais troféus na prova – o Barcelona com cinco e o Inter com dez, fazendo desta a 11.ª – e duas das formações que melhor futsal praticam.

Esperava-se, sobretudo, bastante equilíbrio, algo que acabamos por perceber pelo resultado que não aconteceu: 6-1 para o Inter. Curiosamente, foi o Barça que abriu ao marcador, bastante cedo até (3′), por Ximbinha. No entanto, mais nenhum golo viria a entrar. Os homens de Tino Pérez ainda deram a volta ao resultado na primeira parte e, na segunda, com a expulsão de Marcênio da parte do Barça, os golos começaram a entrar que nem ketchup.

De um lado o covid, do outro o MVP

O Barcelona não pôde contar com Esquerdinha na competição. O pivô, que representa a seleção russa, ainda se encontrava a recuperar do vírus e acabou por desfalcar a equipa, que acabou por depender bastante mais de Ferrão na ação ofensiva. Por sua vez, quem acabou por se destacar, na outra formação, também foi um pivô: Pito. O brasileiro, para nós, levou o título de MVP para casa, sendo absolutamente fulcral para o Inter durante toda a competição. Apesar de só ter marcado dois golos em toda a Copa, bisando no encontro inicial frente ao Palma, o atleta foi a base da construção de todo o ataque do Movistar.

https://twitter.com/InterMovistar/status/1376322985750069249?s=20

Como um time-out pode dar um título

Barcelona começou melhor, muita rotação, jogo muito rápido e com Ferrão a estar muito bem. Do outro lado, o Inter ia sentindo problemas na saída de jogo, fruto da pressão do Barça e da melhor colocação das peças por parte de Andreu Plaza. O Barça chegou ao golo e logo de seguida o treinador do Inter, pediu um tempo técnico. Criticado pelos comentadores, mas desde esse momento, nunca mais a equipa catalã colocou o seu futsal em ação. Tino Pérez meteu “os filhos de castigo” de tal forma que o Inter, depois desse time-out, não perdeu nenhum (!) duelo. Podemos claramente demonstrar, apenas com este exemplo, como o míster mexeu por completo com o psicológico dos seus atletas que acabaram por não comprometer mais esse encontro. O Inter passou a pressionar mais alto, ganhou mais bolas e depois deste tempo técnico, o Barcelona nunca mais se conseguiu encontrar e na segunda-parte foi ainda pior. Inter Movistar muito forte, muito intenso, muito aguerrido e um Barcelona perdido e distante do melhor Barcelona. Tino Pérez mudou o jogo e foi muito ele o responsável por esta conquista.

Momento da Copa (Barcelona)

Não podemos apagar – nem ignorar – a derrota pesada da equipa catalã. Podíamos destacar vários passes, fintas, golos, jogadas, pois sabemos da qualidade do Barcelona, não será por acaso que é considerada a melhor equipa do mundo de clubes. Ainda assim, optámos por ir até ao resumo final, quando Ximbinha reage, imediatamente após ser goleado frente ao rival, a relembrar que esta equipa “não está habituada a perder”. São momentos destes que, por si só, desde as sensações até às aprendizagens, fazem um clube destes crescer para vencer (ainda) mais.

https://twitter.com/FCBfutbolsala/status/1376273810110943240?s=20

Momento da Copa (Inter Movistar)

Da mesma maneira que escolhemos a final para o Barcelona, seria óbvio fazê-lo com o Inter, ainda para mais depois desta conquista tão expressiva. São os momentos de festa, de celebração e alegria que enchem, ainda mais, o museu desta formação madrilena, que levou assim o 11.º troféu nesta prova, eles que são o clube com mais Copas de Espanha.

https://twitter.com/SomosFutsal/status/1376278689105776643?s=20

Queríamos terminar de forma simples, mas com um assunto que nos toca. É verdade que a pandemia nos mudou a vida, mas também alterou (em muito) o desporto, algo que por vezes parece passar ao lado. A Copa de Espanha tem, por hábito, estar esgotadíssima dia após dia. Este ano as bancadas estavam despidas, mas nem por isso as equipas deixaram de dar espetáculo para todos os fãs que não podiam estar presentes.

https://twitter.com/SomosFutsal/status/1376319407899676672?s=20

Texto por: José Andrade e Maria Pinto Jorge