Começam hoje os playoffs da Liga Placard de basquetebol e, como a Federação Portuguesa de Basquetebol é das poucas que apresenta dados estatísticos bastante completos, parece-me uma boa altura para uma análise ao que se passou na fase regular.

Observemos a tabela classificativa:

 

 

Olhando para a tabela, houve, a meu ver, duas equipas que desiludiram – Benfica e Vitória de Guimarães, e duas surpresas – Imortal e Lusitânia.

O Lusitânia beneficiou, e muito, do facto de ter o recém coroado MVP da fase regular: refiro-me ao poste Temidayo Yussuf, jogador que terminou esta fase com médias de 20 pontos, 10,3 ressaltos e 3,3 assistências. Yussuf saiu recentemente dos açorianos com destino ao Antibes de França, desfalcando-os para os playoffs. Como é que nenhum dos grandes assegurou este jogador para a próxima época, é algo que não consigo explicar…

O Imortal está a fazer uma época sensacional! Vindo da Proliga (2ª divisão) e tendo mantido o seu núcleo duro de jogadores, acrescentou algumas pedras muito valiosas a um plantel, já de si, claramente de 1ª liga. DJ Fenner foi o 2º melhor marcador da liga (com a mesma média do 1º), com 20,5 pontos por jogo, Tyere Marshall, um poste mais móvel e bastante lutador pelas bolas que ressaltam no aro, terminou a fase regular como o 2º melhor ressaltador ofensivo com 3 ressaltos em média por jogo. Ao bom jogo exterior da equipa, juntaram-lhe o bom jogo interior de Jalen Jenkins, que chegou neste mercado de Inverno. Tanner Omlid já vinha com a equipa da Proliga e é o 2º jogador com mais roubos de bola e desarmes de lançamento na liga!

Quanto às desilusões, o Guimarães é uma equipa que habitualmente fica classificada logo abaixo dos grandes e, fruto da sua inconstância desta época, terminou esta fase regular no último lugar de acesso aos playoffs. Apesar de tudo, vai ser uma equipa que vai dar muito trabalho ao Sporting…

Quanto ao Benfica, tem o melhor plantel, recheado de bons jogadores, mas são uma equipa com pouca intensidade defensiva e com muitos apagões durante os jogos. Tem sido uma época para esquecer, pois, apesar de terem marcado presença nas final four das competições a eliminar, não ganharam nenhum troféu! Ficaram de fora das finais disputadas esta época e a cereja no topo do bolo é o facto de terem terminado o campeonato em 4º lugar, atrás do Imortal!

Observemos agora a tabela onde constam apenas os dados dos 5 primeiros classificados na Liga:

 

 

De salientar que, equipas como o Galitos, Lusitânia, Académica, entre outros não constam das mesmas, porque apenas estou a comparar os dados dos 5 primeiros classificados da liga, isto é, os ditos 4 grandes (Sporting, Porto, Benfica e Oliveirense) mais o Imortal.

Analisando os dados estatísticos mais comuns no basquetebol (faltam os turnovers que são sempre um dado muito importante), verificamos que:

 

  • O Sporting é a equipa com mais posses de bola por minuto (68,88), sendo, consequentemente, a equipa que mais lançamentos efectua num jogo, privilegiando muito mais os lançamentos de 2 pontos aos de 3 pontos, quando comparado com os seus mais directos rivais. Temos, no entanto, o 2º melhor registo de pontos marcados por jogo, com uma média de 88,8. Apesar do nosso conhecido jogo mais “individualista”, somos a 3ª equipa com mais assistências na liga, o que contraria a ideia de que o Sporting não sabe partilhar a bola. Somos a equipa mais ressaltadora da liga, com uma média de 44,15 ressaltos por jogo, sendo também líderes nos ressaltos defensivos e ofensivos. Temos a 2ª melhor defesa do campeonato com uma média de 70,15 pontos sofridos. Ainda dentro das estatísticas mais defensivas, somos líderes nos desarmes de lançamentos e 2º classificados nos roubos de bola, só ultrapassados pelo Imortal. Não existe estatística onde o Sporting não esteja no top 3 das equipas da liga, excepto eficácia de 3 pontos (onde somos 6º na geral) e nas faltas (cometidas e sofridas). O Sporting gosta de defender, correr, de ataques mais simples e curtos e com concretizações mais fáceis próximas do cesto. A estatística comprova-o!

 

  • O Porto apresenta a melhor defesa do campeonato, com uma média de apenas 68 pontos por jogo. Eu digo sempre que, se mantivermos a outra equipa abaixo dos 70 pontos, ganhamos praticamente todos os jogos… Embora tendo a melhor defesa do campeonato, o FC Porto está bem longe dos seus rivais nos roubos de bola (onde é 9º na liga) e desarmes de lançamento (onde é 7º na liga), embora seja a 2ª melhor equipa a assegurar ressaltos com 42,03 por jogo, alicerçados sobretudo no seu ressalto defensivo, onde são melhores. O Porto é a equipa que melhor partilha a bola com 21,61 assistências por jogo, sendo, no entanto, a equipa que menos posses de bola tem por minuto (apenas 64,76 lançamentos de campo por jogo), o que é consentâneo com o ataque mais pausado e trabalhado do FC Porto.

 

  • O Imortal tem um estilo de jogo muito rápido, onde é privilegiado o lançamento de 3 pontos. São a 3ª equipa com mais posses de bola por minuto, fazendo uma média de 67,53 lançamentos por jogo, sendo 2º em triplos tentados. São o 4º melhor ataque da liga, 5º nas assistências e têm a 4ª melhor defesa. Apesar do pouco jogo interior, conseguem ganhar mais ressaltos por jogo que o Benfica (que é 8º na liga) e são líderes nos roubos de bola e 3º nos desarmes de lançamentos (estes dois dados estatísticos têm o dedo de Tanner Omlid, como já referi acima).

 

  • O Benfica é um caso muito curioso! É a equipa com melhores percentagens de lançamento, quer de 2 quer de 3 pontos, e 2° classificado na partilha de bola (assistências), mas apenas 4º no número de posses de bola por minuto, o que nos leva a concluir que, tal como o FC Porto, não gosta muito de “correr” e sim prolongar os seus ataques. Fruto dessas boas percentagens, o Benfica tem a melhor média de pontos marcados, com 89,73 pontos por jogo. Os problemas do Benfica estão no outro lado do campo – na defesa. Apesar de estarem em 5º nesta tabela, os encarnados são a 8ª melhor equipa da liga em ressaltos, sendo ultrapassados por equipas como Lusitânia, Académica e Galitos! O Benfica tem Cameron Jackson, Eric Coleman, Quincy Miller, Arnett Hallman e Betinho Gomes, que são jogadores acima dos 2 metros, o que demonstra que não é um problema de altura, mas sim de atitude. Dos 5 primeiros classificados, o Benfica é a equipa que permite que os seus adversários marquem mais pontos, 77,07 pontos sofridos por jogo. Olhando para estes dois indicadores (ressaltos e pontos sofridos), podemos ser levados a pensar que o Benfica não gosta de defender, mas, se incluirmos nesta análise os roubos de bola e desarmes de lançamentos, essa ideia cai um pouco por terra. Os encarnados são 2º nos desarmes de lançamento e nos roubos de bola, estando inclusivamente à frente do Sporting (uma equipa de matriz marcadamente defensiva) neste último capítulo. O Benfica é, sobretudo, inconstante, sendo capaz do melhor e do pior num jogo e tendo sempre muita dificuldade em manter o mesmo rendimento durante 40 minutos.

 

  • A ainda bicampeã Oliveirense não tem a qualidade de outros anos e a classificação final reflete isso mesmo, embora continue a ser uma equipa a ter em conta, pela atitude e experiência. São a segunda equipa com mais posses de bola por jogo (67,84 lançamentos de média) e a que mais lança de 3 pontos. Apesar de nas percentagens de lançamento de campo serem apenas 4º classificados e 5º nas assistências, são terceiros nos pontos marcados. A equipa de Oliveira de Azeméis tem um ataque rápido, gosta de “correr” e jogar em contra-ataque, e é muito solidária no ressalto (terceiros com 41,69 ressaltos por jogo, sendo segundos nos ressaltos ofensivos). Apesar de ter a 3ª melhor defesa (média de 73.34 pontos sofridos por jogo), são apenas quartos e quintos classificados nos roubos de bola e desarmes de lançamento, respectivamente. Como eu disse atrás, são uma equipa muito solidária e, não tendo grandes especialistas defensivos em termos individuais, compensam com o seu colectivo.

 

Os playoffs começam agora e, apesar de serem à melhor de 5, entramos numa fase de matar ou morrer. O nível e intensidade de jogo deve aumentar e esperam-se duras batalhas para todos os candidatos.
Será curioso ver se estes dados estatísticos se alteram e de que forma as equipas vão adaptar certos comportamentos em campo, de forma a explorarem os seus pontos fortes e mascararem os seus pontos fracos.

Sporting, Porto, Imortal e Benfica deverão confirmar o seu favoritismo nesta 1ª ronda, sendo que Sporting e Benfica deverão ter os confrontos mais difíceis. Nota também para o Imortal que, se não puderem contar com os seus dois americanos no jogo interior, perdem elementos importantes na rotação e poder de fogo na luta pelas tabelas.

 

Que vença o melhor!