[Convidámos a Joaquina Fortunato, jogadora de voleibol e conhecedora da realidade do voleibol em Portugal, para comentar uma jogada da equipa do Sporting CP. A Ju escolheu uma jogada que realmente trouxe muitos pontos à equipa este ano e foi um momento alto da época.]

Para mim, no voleibol, não faz sentido individualizar.

Quando falamos em voleibol estamos a falar de um desporto coletivo e só faz sentido olhar para ele como o próprio nome indica. A equipa do Sporting CP tem muitos pontos fortes e poderia escolher vários, mas hoje vou falar de um em específico.

Vou escolher a formação P1 em K2 para vos explicar melhor a magia do voleibol e o quão cada peça é fundamental dentro do campo. Isto significa que a distribuidora está na posição 1, em contra-ataque, ou seja, quando a distribuidora está a servir.

Quando o Sporting CP tem a sua distribuidora a servir, neste caso, a Ana Couto, a distribuidora mais utilizada, fica com uma rede de 3 pontos de ataque: Bruna, Aline e Vanessa Paquete/Cristiana (falando das jogadoras mais utilizadas). Esta formação do Sporting CP pode criar (e criou) imensas dificuldades ao adversário.

Começando pelo serviço da Ana Couto, este cria dificuldades à receção adversária, o que por consequência vai dificultar toda a construção de ataque do adversário, facilitando assim o primeiro toque do Sporting CP.

Este primeiro toque que tem de ser tão ou mais rigoroso que o segundo porque pode colocar a distribuidora em excelentes condições para distribuir o seu jogo. Neste caso, a Ana Couto pode usufruir de uma bola a tempo zero da Aline, pode acelerar a bola nas costas em zona 2 e pode colocar a bola na Bruna que está na entrada de rede na zona 4. Pode também contar com o ataque de segunda linha por zona 6.

Toda esta dinâmica se for devidamente trabalhada, ou seja, se todas as jogadoras que estão no campo conseguirem desempenhar a sua função, deixará, por exemplo, a Bruna de 1 pra 1 ou com bloco desfeito. Por outras palavras, a Aline vai à bola curta (tempo 0) uma bola muito difícil de acompanhar, logo vai prender a central do adversário, a oposto prepara-se para uma bola acelerada, acreditando que a bola vai mesmo para ela, a jogadora de zona 6 também se movimenta de forma a estar disponível para atacar. No entanto, a distribuidora consegue colocar na ponta, onde aparece a Bruna em perfeitas condições para fazer ponto. Falando em concreto da Bruna, que é uma jogadora com facilidade em pontuar seja na linha ou na diagonal, ao ter uma bola em boas condições e com bloco desarmado, vai com certeza pontuar.

Assim esta jogada foi uma das melhores jogadas da época, e nesta formação puderam, inúmeras vezes, ganhar vantagem perante o adversário.

Tudo isto para explicar que o voleibol é um jogo que requer um cuidado tático acima da média, as movimentações sem bola são aquelas que muitas vezes vão possibilitar colocar a atacante nas melhores condições e pontuar.

O voleibol não depende nem nunca dependeu de uma ou de outra atleta. O voleibol depende de uma equipa, onde todas as peças são fundamentais e têm a sua função dentro de campo. É importante que cada uma delas saiba da importância que tem na equipa e que reconheçam essa mesma importância, estando ou não dentro do campo. Para acontecer a “jogada” que referi, é preciso treino e trabalho de toda a equipa (atletas e equipa técnica) para que as coisas “pareçam fáceis”.

Assim, termino a dizer que o voleibol vai muito para além daquilo que estamos a ver. Quando perceberemos isto, aí sim conseguimos sentir a magia deste desporto.

Joaquina Fortunato

Jogadora de voleibol